segunda-feira, 2 de julho de 2012

Os 3 Selves – Três olhares sobre nós mesmos.




Desde que a Starhawk publicou “A dança cósmica das Feiticeiras” e mencionou os 3 selves como parte de uma liturgia mágica a busca por informações acerca deste tema vem crescendo cada vez mais. Para o praticante sério a teoria dos 3 selves é possibilidade de aprofundar os estudos que buscam o “auto-conhecimento” (que eu particularmente prefiro chamar de “reconhecimento”) e sustentar psicologicamente um trabalho mágico. Starhawk trouxe os selves como parte integrante da liturgia Feri, o que é definitivamente verdade, mas se engana quem pensa que foi algo que Victor Anderson elaborou por si só. Os que se debruçam sobre a Tradição Feri sabem que Victor alegou ser, dentre tantas coisas, um Kahuna e foi na tradição Huna que ele encontrou subsídio para aprimorar sua teoria sobre estas partes de nós mesmos. Muitos são os nomes dados a estes Selves, os mais populares são definitivamente Self Jovem, Self Discursivo e Self Divino, como Starhawk denominou, os nomes havaianos são Unihipili, Uhane e Aumakua e ainda tem a denominação que Thorn Coyle fez, Sticky one/Fetch, Talker e Sacred Dove.
            Longe de querer colocar que esta teoria pertence a tal ou tal corrente, o objetivo destes escritos são o de mostrar que os 3 selves estão presentes na história espiritual/psicológica humana desde os mais antigos tempos, abrangendo os estudos de Qabalah, magia egípcia e até mesmo conhecimentos celtas. A abordagem que eu vou dar neste texto é a havaiana, a qual eu me identifico mais.

Uma das partes mais importantes dos ensinamentos da tradição Huna é o de que nós não somos somente corpo ou mente, vamos além, temos várias facetas. Os Kahunas sabiam disso a milhares de anos atrás.
Em 1970, Milton Erickson através de pesquisas e estudos elaborou uma tese que conseguiu aproximar o pensamento ocidental da filosofia Huna. Ele chegou muito próximo de uma explicação da mente consciente e inconsciente, bem como de suas funções.

A mente consciente
Muito antes do Dr. Erickson, os antigos Havaianos chamavam a mente consciente de Uhane.
'Uhane: 1. Alma, espírito.
Primeiramente se faz imperativo entender que não somos somente mente consciente. A
Mente consciente é lógica, é a sua parte racional, a parte que você denomina de “Eu”, é o (re)conhecido, é quem diz “Eu sei”, “Eu faço”, “Eu tenho” e etc.
            Os antigos ensinamentos Havaianos pregavam que assim como existe uma mente consciente (o que grande parte de nós já conhece e sabe) também existe uma mente inconsciente (que muitos de nós desconhecemos) e assim como existem as mentes consciente e inconsciente, existe uma mente superior. Todas as mentes são separadas, diferentes umas das outras, cada uma com sua função distinta, mas inter-relacionadas. A mente consciente não consegue identificar a ação de nenhuma das outras mentes exceto em estados alterados de consciência, alcançados em meditações e práticas específicas.

A mente inconsciente
O que chamamos de mente inconsciente os antigos Kahunas chamavam de Unihipili. Como um todo, significa gafanhoto; por isso vamos olhar mais de perto para as raízes desta palavra:
u: O assento de nossas emoções, das quais provem os sentimentos e as percepções
corporais, aquilo que provem do coração, o elemento materno, o leite da vida.
ni: Derramar um liquido;
hi: Soprar com força algum liquido da boca.
pili: Agarrar, colar, aderir, tocar, juntar, associar, estar com, estar perto de ou adjacente,
relacionamento próximo, pertencer a algo.
A mente inconsciente é uma parte muito importante do funcionamento psíquico. Vamos pensar sobre isso um momento, é uma parte sua que gerencia o seu corpo; faz seu coração bater, o sistema linfático circular, sua respiração ser contínua, seus olhos piscarem, seu estômago a digerir comida e muitas outras tarefas que você nem nunca parou para pensar.
Pense nisto também: O quão consciente você está de todas as funções das quais o seu inconsciente é responsável? Talvez mais importante ainda, o quão bem você conhece a sua mente inconsciente? Você considera o seu inconsciente como um amigo próximo e confiável ou tem algum atrito com ele? Os antigos consideram que entrar em contato com seu inconsciente e se aproximar realmente dele é uma tarefa muito importante, o primeiro passo. Independente da sua relação com o seu inconsciente, conforme vamos praticando e entrando em contato com seus conteúdos, vamos percebendo que ele está mais presente e próximo do que você imagina.
Os antigos, os La’au Kahea postularam que a mente inconsciente tinha certas funções, as quais chamaram de “Primárias e Diretivas” da mente inconsciente.

A mente elevada
O grande Kahuna, Papai Bray, que viveu em Kona (e morreu em 1968) disse que o ser
humano é constituido de partes materiais e espirituais, que somos igualmente matéria e
espírito, assim como um imã, com um pólo na matéria e outro no espírito. Com isso, também colocou que todos temos uma consciência, uma mente mais elevada, o termo
usado para nomear esta mente é Aumakua, que significa:
Au: Um fogo ou fogueira subindo pelo ar, como um espírito, ou espírito, meu, seu de
outra pessoa. (entra no conceito de imanência e conexão).
Makua: Parente, alguém mais velho, maduro, ou sustentar.
(A palavra aumakua também era usada como um termo carinhoso para qualquer parente
espiritual, incluindo muitos dos ancestrais e deuses que eram venerados sob este nome.)
Mas como estas três mentes se relacionam? E como são conectadas?

Conectividade
Cada self se conecta com o outro através da energia vital, o que os havaianos chamam de Mana, os japoneses de Ki, os chineses de Chi e etc. Este é o quarto elemento de nossa equação.
Existe uma conexão entre a Mente consciente e a Mente inconsciente e o fluxo de energia e informação vai para ambos as direções, existe uma troca.
Existe também uma conexão entre a Mente inconsciente e a Mente Elevada, o fluxo de energia é para ambas as direções, existe uma troca.
Mas não existe comunicação direta entre a Mente consciente e a Mente elevada. Assim sendo, a Mente elevada pode se comunicar com a Mente consciente através de uma “chuva” que cai de cima para baixo, da Mente elevada para a Mente consciente.
É através do Mana que as 3 mentes se comunicam umas com as outras, mas o mana precisa fluir por algum lugar, este lugar são os tubos de Aka e se constituem de matéria etérica. Este tubo difere dos conhecidos Ida, Pingala e Sushuma da filosofia Hindu por conectar partes diferentes do corpo e não somente o duplo etérico. Os 3 canais Hindu trabalham para a Mente inconsciente.
Por isso, Aka é uma substância etérica que serve de mediador para a transmissão de Mana. É densa e grudenta e por isso se conecta e permanece conectada com tudo o que tocamos. As cordas de Aka são como pequenos cordões ocos, através das quais o Mana navega.
A maneira como estes 3 selves interagem é bastante complexa e são temas para os próximos posts. O importante é começarmos a aprofundar nosso conhecimento acerca deste tema, já que o a aplicação deste tem o potencial de levar a nossa prática para outros níveis.
           
            Eu, particularmente, aprecio muito esta corrente teórica que divide o ser em 3 partes, pois toca o que me diz de mais profundo em minhas crenças. 3 selves, primeiramente abstratos, são meros conceitos mas que aos poucos se tornam cada vez mais presentes na vida de quem os vive, se tornam norteadores e referenciais de prática, são com a Deusa em si mesma: Abstrata e ao mesmo tempo tão presente. Ao afirmar que temos 3 selves e 4 corpos (Espiritual, Mental, Emocional e Físico) nos voltamos a crença do Deus. 3 é um número Deusa e 4 um número Deus. Imperatriz e Imperador. Meu corpo é o quarto elemento neste processo, onde os 3 selves podem agir, assim como Deusa age sobre Deus e sem Deus, Deusa não pode agir.
            Pensando no mito de criação mais genérico podemos identificar, levando em consideração “O que está acima é como o que está abaixo”, o processo evolutivo dos 3 selves:
“No ínicio era o Nada, o grande 0, a Deusa Estrela, brilhante e divina, Aumakua, que ao reconhecer-se no reflexo do espelho cósmico fez amor consigo mesma, dando vida a este reflexo que foi se afastando até se tornar seu oposto completo, Unihipili. Deste encontro entre opostos surgiu tudo o que existe. Esta criação ao tomar consciência de si, tornou-se Uhane.”
            Aos poucos vamos desdobrando como cada Self trabalha, como pode ser estimulado e qual sua abrangência. Apropriar-se deste conhecimento significa ter bases para sustentar um trabalho mágico/espiritual saudável e fazer uma leitura de ações e comportamentos mais eficaz, abrindo as portas da transformação e cura. 

Um comentário:

  1. Adorei o texto, muito bem desenvolvido e explicado. Gostaria de encontrar o próximo post que fala sobre a prática com esses selfies. obrigado, continue com esse maravilhoso trabalho!!

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