sábado, 28 de abril de 2012

A Roda do Ano, um novo olhar.


A concepção de bruxaria sempre foi e continua sendo um norteador de prática e reflexão. Hoje mesmo conversando com um aluno ele me questionou a diferença entre um bruxo e um mago, rapidamente a primeira coisa que me veio a mente foi a forma como um bruxo orienta seus trabalhos, como se conecta com as energias ao redor e como pode fazer uso consciente de toda essa forma, interagindo ao invés de coagir ou oprimir, que é o que as vezes eu percebo nas práticas de Alta Magia. Coloquei que existe uma espiritualidade, uma força, energia, o mago acaba sendo um cientista, cada coisa é calculada, pensada, medida e testada, um bruxo é um artista, trabalha com algo que é visceral, espontâneo, cru e baseia-se na interação.
                Sendo assim, o preceito básico de um bruxo é se orientar pela natureza ao redor, fazer parte dela e interagir com ela, da melhor maneira possível. A roda do Ano e a roda da Lua preenchem esta lacuna prática-espiritual, mas mesmo assim eu nunca me senti completamente satisfeito, por diversos motivos, um deles é o antigo dilema de rodar pelo norte ou pelo sul, uma discussão que já deu o que tinha que dar e fomentou muita transformação e reflexão necessária na época, hoje não é mais cabível, outro é uma questão cultural, sendo que a roda do ano é baseada principalmente na cultura celta, mesmo entendendo que são pontos anuais de referencia para muitas culturas ao redor do mundo, a tradição mais popular continua sendo a celta, o fato de basear os festivais em um calendário cristão não me deixou muito satisfeito também, de todas as coisas, esta é a que menos faz sentido pra mim. Como bruxo, me oriento pelo Sol e pela Lua, marcar meus rituais pelo calendário vigente não é compatível com a maneira como eu entendo a bruxaria, nossos ancestrais marcavam seus rituais nas luas cheias e nos marcos do Sol.
                Com tudo isso em mente e motivado fortemente pelo livro da Starhawk “The Earth Path” eu propus ao círculo de bruxaria em que participo o projeto de repensar a roda do ano, que está sendo basicamente observar a natureza ao redor para que possamos atribuir significado pessoal e mais congruente com a nossa realidade, tornando a magia eficaz, procurando a melhor maneira de alinhar-se toda essa energia que vibra ao redor e ir além, conseguir sincronizar práticas, crenças e ações nestes festivais, para criar marcos, estabelecer padrões que vão se enraizar com o tempo em cada um e atribuir significado religioso e prático a cada ponto de vista, a cada vivencia espiritual.
                Antes de mais nada, um bruxo está a serviço de sua comunidade. Mesmo que a nossa sociedade moderna não entenda os nossos meios, nosso foco ainda é (ou deveria ser) o mesmo, curandeiros, oráculos, parteiras, artesões, mulher e homem de medicina, agricultores, professores, sempre a serviço da comunidade. Os festivais solares eram celebrações agrárias, feitas para honrar, agradecer e reverenciar a terra. A espiritualidade vivida estava alinhada diretamente com a rotina de um povo todo, não era nada abstrato, era sim, puramente pragmático, motivados por uma necessidade real de sobrevivência unida com a consciência de interação com o espírito da terra e da natureza. Hoje em dia vejo isso mudando, Beltane é um festival sexual, Samhain é funerário, quase como uma “brincadeira do copo” viva e constante, Lughnasadh é meio deixado de lado por que não faz mais sentido as colheitas, tudo ficou muito mais abstrato, tudo ficou enclausurado dentro de um círculo que deveria seguir a prerrogativa de refletir internamente uma realidade externa, seguir a premissa de “o que está em cima é como o que está abaixo” o que não acontece na maioria das celebrações que eu tive a oportunidade de participar, é tudo muito mental, eu não gosto muito disso, pois nosso mundo está precisando de pessoas que ajam, pessoas que transformem o mundo com atitude, ações, práticas e saiam do intelectual. Bruxaria é por a mão na massa, sujar os dedos de tinta, dançar ao som da música das esferas, cantar a todo fôlego, reivindicar, protestar e viver, sempre, intensamente.
                Com tudo isso, a roda do ano se torna uma oportunidade de fazer algo, cada coisa em seu momento, sintonizada com a natureza ao redor, se torna um fardo mais leve pois tudo tem seu tempo certo. Separei os Solstícios e Equinócios (os festivais menores) representados e marcados pelo transito do sol pela terra, dos festivais maiores, que são um tipo de “boas vindas” para as estações. Com os Solstícios e Equinócios liguei um a cada elemento. No Equinócio de Outono, liguei com a água, o de Inverno com o ar, o de Primavera com a terra e o de verão com o fogo e em cada um a oportunidade de se conectar com o elemento, reavaliando, consagrando e reconhecendo a sacralidade de cada um, isso abre um leque de oportunidades e reconstrói os conceitos de preservação ambiental, com respeito, amor e devoção. Uma frase que me marca muito isso é a que fala que “Quando os mares e rios eram divindades, não eram poluídos” e é essa a idéia principal dos rituais para os elementos fortalecer esta conexão sagrada com cada um e com nós mesmos. Os festivais maiores relacionei conforme os antigos, a lua cheia em cada signo simboliza um marco energético de profunda transformação. O Sol no signo encontrando a Lua cheia. Lua cheia de Aquário, Touro, Leão e Escorpião. Um signo para cada elemento e uma oportunidade de realizarmos um encontro com a comunidade. Em todos eles práticas voltadas para a cura da comunidade, ações sociais, direcionamento energético e meditações são pontos chaves. 
                Mudar é preciso, agir é preciso, ser bruxo é isso, assumir a responsabilidade pela nossa comunidade, temos em nossa mão o poder de fazer diferente, de fazer acontecer! Somos Deuses, o que é impossível para nós, quando estamos juntos, unidos, de mãos dadas, num tempo que não é tempo, num lugar que não é lugar?

2 comentários:

  1. Um bruxo interage com a Natureza, um mago a domina.. e sendo nós, pagãos ligados aos ciclos da Grande Mãe, nada mais lógico que nos unamos a ela.. e achei excelente essa nova visão da Roda! adoraria ver a diagramação dela! beijoss

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  2. Muito bom o texto, eu acho que a forma como lidamos com nosso meio esta diretamente ligada a como a nossa magia opera, realmente repensar a roda do ano e adéqua-la a nossa realidade deve dar uma potencia maior ao giro da roda e facilitar a nossa compreensão dos processos da Terra.

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