sábado, 3 de março de 2012

Herne e o Instinto do Sagrado Masculino

           Herne é um Deus muito curioso no panteão Celta-Bretão, infelizmente na tradição celta o conhecimento todo era passado oralmente, onde os Bardos eram treinados por anos nas canções, prosas e poemas no que concerne a cultura de um povo. Somente com a conquista e invasão cristã é que o conhecimento começou a ser escrito, mas até isso acontecer muito se perdeu. Na Irlanda ainda existem livros que relatam de maneira fiel a crença do povo celta, já em Gales a empreitada não teve muito sucesso sendo que o único livro escrito sobre é o Mabinogion, que fica óbvio pra quem lê de que seus contos não carregam o espírito de suas lendas.
                Mas como então sabe-se tão pouco sobe Herne e tanto sobre outros Deuses celtas? Janet e Stewart Farrar em “The Witche’s God” discutem sobre a possibilidade de que este Deus fosse um Deus do povo e não tanto das classes mais elevadas, das quais os Bardos retratavam em suas canções.
                Herne é geralmente descrito como um homem com chifres de cervo, acompanhado por animais, segura o Torc circular em uma de suas mãos e uma serpente em outra como retrata o caldeirão de Gundestrup:



                Suas funções e atribuições recaem sobre a caça, a fertilidade e ainda aos mistérios do instinto masculino. A idéia de um caçador chifrudo remonta os tempos muito antigos, as pinturas das cavernas mostram este homem coberto com peles de animais em cenas que lembram uma cerimônia. A idéia era que o caçador deveria se identificar com sua caça, o cervo, com o objetivo de apaziguar seu espírito dominante. Este é o mistério mais antigo do mundo: o caçador e a caça deveriam ser um só.
A transformação em natureza animal seja a de touro, cervo, cavalo, javali, gato, pássaro ou peixe, aparece com freqüência nos contos celtas. A identificação xamânica com animais se refletia claramente no culto celta, inclusive, nos tempos do cristianismo.
Segundo Justino, os celtas tinham mais maestria na arte da adivinhação do que qualquer outro povo de seu tempo e atinham-se a ela cegamente. Foi uma revoada de pássaros que guiou os galeses que invadiram Illyricum. Em outra ocasião, a maneira de voar de uma águia convenceu um rei que deveria regressar de uma expedição e evitar um desastre. Se houvesse algum litígio entre duas pessoas, cada uma colocava alguns pastéis sobre a mesa, de modo que não houvesse confusão sobre a propriedade de cada grupo de pastéis. Os corvos vinham, pousavam na mesa, comiam vários deles e beliscavam e inutilizavam um a um. O litigante cujo pastel tivesse sido apenas beliscado era o ganhador da causa.
Partindo deste contexto Herne se torna o poder que cada homem tem dentro de si de interpretar acontecimentos ao seu redor e seguir o seu instinto, algo muito parecido com a intuição (mas esta, claramente referida as mulheres como “intuição feminina”) e cabe a nós, homens, resgatarmos este conhecimento ancestral que vem de dentro, das entranhas físicas e espirituais, utilizando-se desta ferramenta para fazermos as nossas escolhas o mais consciente possível quando as probabilidades ainda são incertas.
Os caçadores identificavam os rastros de sua presa, colhiam informações no ambiente, mesmo que de maneira inconsciente, abriam-se ao que a floresta tinha a lhes dizer sobre que direção seguir e mais ainda, sobre até onde poderiam ir. O homem como Macho Sagrado está totalmente desperto do impacto de suas ações no mundo ao seu redor, caça somente o que lhe é necessário, é livre da ganância e egoísmo, pois realiza um trabalho em prol de sua comunidade. Herne ainda é um poder misterioso para muitos homens, mas um Deus extremamente visceral, vivo e próximo de nossas vidas. Herne representava a masculinidade popular de uma época, era o poder do caçador, do nutridor, daquele que compreende o poder da Deusa e respeita o seu equilíbrio, é através dele que a balança também é ajustada, é um instrumento divino.
Sendo meio homem, meio animal, consegue preservar o melhor de dois mundos, está aliado a sua natureza instintiva e consegue direcioná-la de acordo com a sua natureza racional e por este motivo é o ideal de xamã, de bruxo, aquele que cruza os mundos, aquele que lê os sinais.
O chamado dos Gamos, cantado por ancestrais celtas, relembram o nome do Deus “HHH-ERRRN”. Este Deus está associado ainda aos parques de Windsor, onde segundo relatos, ele aparece em tempos de crises, coroado com os chifres do Gamo e liderando a caçada. 

Prática com Herne – Abrindo-se aos sentidos.

Este exercício é muito simples mas com um desdobramento sem tamanhos no cotidiano de quem o pratica. É através dele que abrimos portas para deixar que nosso instinto nos revele e nos oriente frente a caçada do dia-a-dia.
Vá para um lugar a céu aberto, de preferência perto de árvores, plantas e se puder, rios e riachos. Concentre-se e centre-se, abra todo o seu campo energético para a vida pulsante ao redor. Reconheça o divino em tudo e reconheça o divino em você, reconheça que tudo é um. Respire lenta e profundamente, sinta o cheiro do ar, inspire e expire. Inspire através de seus olhos, abra-os para a beleza das cores, inspire pedindo que seus olhos possam ver o mundo mágico ao redor, que eles possam se deleitar com as cores, com as formas, inspire através de seus ouvidos, para que eles possam escutar a música das esferas, o som dos pássaros, o som do bater de seu coração, o som de sua respiração, para que eles possam ouvir atentamente quem procura um ouvido amigo, inspire pela sua boca, para que ela possa sentir os sabores do mundo, deliciar-se com cada palavra que sai, para que elas possam nutrir o ambiente de maneira positiva, inspire pela sua pele, pela ponta de seus dedos, para que você possa sentir o mundo através do tato, para que cada toque seja uma oração carregada de carinho e amor, para que você esteja atento a cada momento, presente no aqui e agora, para que você reconheça que o seu corpo é sagrado, respire pelo seu nariz, abrindo-se aos aromas do mundo, aos cheiros que envolvem cada lugar, cada pessoa, cada objeto, abra-se para as questões que seus sentidos trazem, que lugar que este cheio te lembra? Qual o gosto desta cor? Qual o som deste sabor?
Agora se dirija a uma árvore, planta ou pedra, esteja presente, inteiro neste momento, pergunte ao Deus que habita neste outro quais ensinamentos ele pode te passar, Sobre o que ele quer conversar, como ele esta se sentindo. Troque experiências, troque amor, troque sabedoria, abra-se para o conhecimento que o mundo tem pra te passar, um conhecimento velado, disponível a todos que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir.
Conecte-se a Herne, ao Deus do instinto, Deus da vida selvagem e peça para ele despertar o selvagem em você. Ser selvagem é ser criativo, espontâneo e divino.

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