quinta-feira, 22 de março de 2012

Personalizando o Seu Deck.



                O trabalho com cartas de Tarot sempre foi muito amplo e pra quem curte, consegue ser bem desafiador. Como um amante das cartas e de Decks variados eu decidi colocar em prática uma atividade que eu vi no vídeo “Modifying Tarot Decks” do The Tarot Connection e eu vou contar neste post um pouco de como foi e esta experiência e como ela modificou totalmente o relacionamento com um dos meus Decks favoritos.
    Bem, uma das sugestões que o vídeo dá é escolher o seu Deck favorito para personalizar de acordo com a sua criatividade. De cara pensei no Wildwood Tarot, que desde que eu comprei, se tornou o meu “intocável” e sim, literalmente intocável, pois eu tinha um receio de fazer leituras com ele, seus símbolos são tão profundos e falam comigo com tanta intimidade que eu o usava somente para meditações e rituais que precisavam tocar minha psiquê de uma maneira única e transformadora. Esta foi uma escolha difícil, pois seria abrir mão de um Deck que eu me importo muito e não estava disposto a investi-lo em uma experiência que poderia resultar num fracasso. Concluindo: Comprei outro exemplar para ter certeza de que não ia perder nada! E assim iniciei um processo mágico e maravilhoso de criar um baralho único.
                É certo de que quando mais nos envolvemos num processo criativo, mais de nós este Novo irá ter e foi esse pensamento que me motivou a continuar. Primeiro, olhar 78 cartas, prontas para serem cortadas, sem que a qualidade do material se perca e ainda, com tesoura. A Ginny usou uma guilhotina ou algo parecido, eu não tinha isso em casa, foi no tesourão mesmo! Primeiro fiz com os Arcanos maiores, pensei que se eu não gostasse do resultado poderia usar estas cartas para outras finalidades. Acontece que o resultado foi bom e muito, além disto, foi ótimo! Entreguei-me a cortar mais e mais, cansou e o resultado final foi várias cartas originais.
                O processo não é somente cortar e tirar as bordas, é preciso embelezá-los, dar um toque pessoal as cartas. Então eu resolvi pintar as bordas com giz de cera. Os Arcanos Maiores foi de roxo, para a espiritualidade e para cada naipe a sua específica cor: Vermelho para Paus, Amarelo para Espadas, Azul para Copas e Verde para Ouros.
                Por fim este é um Deck que não sai da minha mochila e eu estreitei os meus laços com a energia e imagens de cada carta, olhei cada uma bem de perto, senti a sua vibração, meditei e refleti, me emocionei, cansei e me orgulhei do processo final.
                Modificar e personalizar tem seu preço e a coragem e bravura necessária para pegar uma tesoura e retalhar o seu baralho favorito causa boas impressões. A nossa natureza divina é criativa... Cada borda, transborda! Aventure-se e deixe que a originalidade seja a marca de seu mais novo velho Deck!

domingo, 18 de março de 2012

Ah Puch – Morte

                Ah Puch. Também conhecido como Kizin' ("O Apestoso"), Yum-Kimil, Hun ahau. Na mitologia maia é o deus e rei de Metnal, o submundo, que era o pior dos nove infernos. Descrito como um esqueleto ou cadáver com um rosto de jaguar (ou boi) adornado com campainhas; algumas representações o mostram com cabeça de caveira, as costas desnudas e projeções da coluna vertebral; seu corpo está coberto de carne inchada e de círculos negros que sugerem a decomposição.
Acessórios imprescindíveis do vestido do deus da morte são seus ornamentos em forma de cascavéis. Estas aparecem algumas vezes atadas a seus cabelos ou a faixas que lhe enfeitam os antebraços e as pernas, mas as vezes estão presas a um colar em forma de gola. Estas cascavéis de todos os tamanhos, feitas de cobre e ouro, foram encontradas em consideráveis quantidades durante a drenagem do Poço dos Sacrifícios de Chichén Itzá. Supõe-se que seja o lugar onde haviam sido jogadas as vítimas imoladas.
Ah Puch, a antítese de Itzamna, tem como ele, os hieróglifos de seu nome, e é, depois deste, a única deidade que se distingue desta maneira. Um sinal que se encontra associado freqüentemente ao deus da morte é algo parecido a nosso sinal porcentagem (%). O deus da morte era a deidade paterna de Día Cimí, que significa "morte" em maia. Os Maias e Astecas acreditavam que os cães e corujas acompanhavam a morte, por isso uivos e pios sempre foram associados a este Deus.
Ah Puch é um Deus sombrio, sua influencia é diretamente associada contra a fertilidade e claro, energias vitais e por isso estava ao lado dos Deuses da Guerra, doenças e desastres naturais. Seus mitos o colocam como um caçador que fica a espreita das casas onde existem pessoas doentes, sempre pronto para levar as almas para o submundo. No entanto isto incentivava os rituais fúnebres dos Maias a serem muito dramáticos, os familiares choravam e lamentavam por dias a morte dos seus, sem esforço para disfarçar sua dor, já que seus lamentos, choros e gritos afastariam o Deus, impedindo que ele levasse mais do que alma do morto para Metnal.
Não existe muita informação sobre Ah Puch desde que o cristianismo o demonizou como sendo uma entidade maligna. Na verdade seus aspectos são aqueles que remetem a sombras de nosso próprio self. Ainda mais, este entidade incentiva o luto, o que deve ser bem elaborado para que possamos seguir em frente, a crença neste Deus fornecia os familiares um espaço seguro para lamentar a morte de seus queridos, um tempo para expressarem a sua dor e com isso seguir em frente. Ah Puch ainda é reflexo de uma cultura antiga e primitiva, sem muita imunidade, onde pestes geralmente surgiam e matavam dezenas de pessoas de uma vez. Seus símbolos sendo a coruja e a cascavel retratam ainda um aspecto mais profundo da própria morte, a capacidade de transformação e sabedoria, algo muito freqüentemente associados a divindades do pós-vida e mais ainda ao útero transformador da Grande Mãe.
No desenvolvimento e lapidação da masculinidade moderna, Ah Puch auxilia na morte do velho self, auxilia a deixarmos morrer tudo aquilo que nos faz mal. Um luto não somente por pessoas queridas que morreram, mas por relacionamentos que não deram certo, por projetos que falharam, por casamentos que acabaram, pelos sonhos que não aconteceram. É através deste Deus que podemos tomar um tempo para reavaliar o que aconteceu, aprendermos com os erros e chorarmos a nossa dor para que possamos seguir em frente. Magicamente falando é um Deus muito poderoso e de energia densa que tem o poder de fazer morrer muito mais do que pretendemos, por isso sua abordagem deve ser sempre com muito cuidado e planejamento.
Interessante é trabalhar com Ele em conjunto com uma Deusa Negra, para que possamos lidar com a nossa sombra, com nossos medos e traumas, sempre buscando o equilíbrio. Jung diz que é de nossa sombra que podemos tirar a maior quantidade de energia psíquica e que integrar-se ao seu arquétipo sombra não é destruí-lo e sim aceita-lo e não deixar que ele assuma o controle de situações, com as respostas automáticas e impetuosas. A integração com a sombra permite reconhecer o que bloqueia, quais são os nossos limites e medos para que possamos ultrapassá-los de maneira segura e sadia. Um trabalho que deve ser feito com extremo cuidado e com acompanhamento psicológico sempre, já que nunca se sabe qual defeito que sustenta o pilar de nossa sanidade.
Como oferenda eu prefiro trabalhar com energias mais densas envolvendo este Deus, já que o sacrifício não tem mais cabimento em nossas práticas. Eu ofereço chocolate ou mesmo o cacau, que era uma bebida sagrada para os Maias, cachaça e feijão cozido.

Ritual com Ah Puch – A morte do Velho Self.

Faça este trabalho aliado com os trabalhos de Itzamna. Prepare o seu altar com cores escuras, preto, vermelho e roxo, tenha uma imagem do Deus no altar, velas pretas. Separe papel, caneta e um boneco velho. Elabore uma caixa forrada com flores e tecidos que será o caixão para o boneco. Se costuma trabalhar com cachimbo, prepare um fumo especial para este ritual. Tenha o seu tambor ou maracá consigo. Realize este trabalho num sábado a noite ou na primeira noite de lua nova.
Limpe o local energeticamente, com incensos e ervas, estabeleça o espaço sagrado, prepare as oferendas para o Deus e o invoque com as suas palavras, toque tambor ou maracá, invoque seus aliados de poder, seus animais.
Concentre-se e centre-se, lembre-se dos trabalhos com Itzamna, as camadas de self que não quer mais em sua vida, nomeie em voz alta todas elas e as escreva num papel, agora é a hora de fumar o cachimbo, sem tragar, caso tenha um. Reflita sobre os aspectos seus, hábitos negativos, comportamentos que não quer mais em sua vida. Tome o seu tempo. Respire este sentimento. Escreva uma carta de despedida para este seu velho eu, agradeça pelos momentos bons, pelas dores que eles te pouparam, pela energia que foi investida, entregue-se a este processo. Agora é hora de colocar o boneco, com a carta e a lista do seu velho self no caixão. Toque o seu tambor. Cante.

Vida que flui, que corre, se transforma (2x)
Todo amor que vem da Grande Mãe, vive através de mim, através de você (2x)"
Repita várias vezes

Agora chore pelo seu velho eu, grite, gema, demonstre o seu sentimentos, isso é importante para que Ah Puch leve somente o que você vai enterrar, para que ele leve somente o seu self antigo. Por fim, agradeça a todos os envolvidos. Enterre o caixote com o boneco ou queime em um local seguro.
Este ritual leva um tempo para ser assimilado por corpo, mente e espírito. Pelos próximos dias você pode se sentir estranho, sonolento, fraco, deprimido... se sentir vontade de chorar, chore. Viva o luto de um Eu que morreu.

sábado, 17 de março de 2012

Ain, Ain Soph, Ain Soph Aur - O Inicio, dos estudos e de tudo.

Qabalah sempre foi um assunto muito complexo e tentadoramente prático para se deixar passar batido. Minhas primeiras experiencias e contato teórico com o tema foi através do Tarot e é pelo Tarot que me motivei ao aprofundamento dos estudos. No Irmandade de Isis comecei a trabalhar com o livro do Stuart Myers sob a orientação de Matthew Bearden, meu padrinho dentro da Irmandade e através do Tarot me afiliei ao B.O.T.A. - Builders of the Adytum, que resumidamente conecta a prática da Qabalah com a prática de Tarot de uma maneira muito interessante. Dei inicio aos meus estudos “oficiais” de Qabalah esta semana e vou transcrever neste Blog as minhas anotações, insights e experiências com os estudos e práticas. O Objetivo deste novo momento de estudo é "plantar" a Árvore da Vida no meu ser em todos os níveis, já que a Qabalah, por mais intelectual que seja, representa um movimento anterior a qualquer racionalização, é também espiritual, emocional e física. 
                Os estudos se baseiam basicamente nestes livros:
- The Chicken Qabalah – Lon Milo DuQuette
- Between the Worlds: Witchcraft and the tree of life – Stuart Myers
- A Cabala Mística – Dion Fortune
- Buildersof the Adytum – Programa inicial para associados.
Além de pesquisas no Oráculo Google, o que tudo sabe e em aulas de Hermetismo que citam o assunto comparando com práticas de Yoga, Hermetismo, Bruxaria e Espiritualismo (The Hermetic Hour e Elemental Castings)


Os estudos se iniciam do inicio, a Evolução do Nada. Os 3 véus de existência Negativa. Ain, Ain Soph e Ain Soph Aur. Eu Gosto desta primeira imagem, os 3 véus se condensando em Kether, a primeira esfera da árvore da vida, dando a idéia de algo se solidificando, uma sensação de expansão e contração, é na verdade a primeira imagem de meditação, reflete os padrões universais de fluxo e refluxo,  um pulsar.
Primeiro era NADA (No-Thing, em inglês, traduz de uma maneira interessante, com um jogo de linguagem inteligente o que este primeiro momento representa) Ain, que pode ser traduzido como Deus(a) (e eu sigo a crença pagã de que é Deusa, um pensamento que vou desenvolver adiante). Ain ao realizar o seu próprio estado criou a primeira coisa, o conceito de Nada (Nothing, em oposição com No-thing, acho que podemos traduzir como No-Thing sendo “coisa nenhuma” e nothing como “Coisa alguma”). Ain ao realizar-se em si mesmo criou Ain Soph o conceito de nada e é traduzido como Nada ilimitado, simbolizando assim o plano mental, o plano das idéias e portando cheio de potencial.
Quando Ain Soph compreendeu o seu estado anterior, fazendo o caminho contrário a sua criação (já que Ain compreendeu Ain Soph, agora é a vez de Ain Soph compreender Ain, o que antes era Um agora se tornou Dois e desta relação [já que uma relação implica obrigatoriamente 2 ou mais coisas] um 3 vai surgir) teve o primeiro insight, o Eureka! A lâmpada da idéia brilhante, criou-se então Ain Soph Aur, A luz ilimitada.

É realmente muito complexo e tarefa de uma vida tentar assimilar o conceito de Ain, por não existir um conceito que defina este estado, tentar defini-lo por palavras é transformá-lo imediatamente em Ain Soph. Por isso o conceito de Ain é algo para ser meditado, indo além da compreensão intelectual, é preciso ser uma compreensão física, visceral, já que o NADA, no final das contas é TUDO, ou melhor TUDO é NADA.
A idéia deste primeiro momento de criação é muito similar a diversos outros mitos. “No inicio era a Escuridão. Fiat Lux. E então a Luz se fez.” Como no mito cristão, ou “A Deusa em sua complexidade, ao mirar-se no espelho negro do universo descobriu a si mesma e consigo fez amor. O resultado deste ato foi brotar toda a criação do universo.” Como coloca o mito da tradição Feri. O mito de criação Grego coloca também “No inicio era o Nada, que em sua energia, infinita e criadora transformou-se em Hydros/Khaos, o oceano primordial da vida e se desdobrou em Gê, a lama cósmica da qual tudo brota e para qual tudo perece.”
Estes três estados da existência são conhecidos como estados “Negativos” em polaridade energética, física e nada tem a ver com os conceitos humanos-culturais de Bem e Mal. Por serem negativos, receptivos, são considerados femininos. Como o corpo da Deusa Egípia Nuit se Arca sobre a terra, Geb e entre os dois acontece a criação, assim como o faz os 3 véus sobre a Árvore da Vida.

Crowley explica em seu "Qabalistic Dogma" Sobre está dinâmica:
"(...)O Confronto destes [Ain e Ain Soph] produz a Idéia finita positiva que ocorre ser Luz, אור [Aur].
"Esta palavra [Aur] é a mais importante. Ela simboliza o Universo imediatamente após o Chaos, a confusão do Confronto de infinitos Opostos. א [Aleph] é o Ovo da Matéria; ו [Yod] é Taurus, o Touro, ou Energia-Motiva; e ר [Resh] é o Sol, ou Sistema de Orbes organizado e móvel. As três Letras de [Ain] desta forma repetem as três Idéias."

Este novo momento meu de estudos de Qabalah, mais sistematizado, amplo e organizado (já tenho alguma base, de outros estudos sobre o assunto feito em outros momentos) segue uma nova abordagem: Envolver corpo, mente e espírito na assimilação dos mistérios. Como um mistério de Apollo, vou plantar em mim a árvore da vida, em minha aura que vai refletir em meu corpo conseqüentemente.  Neste primeiro momento se faz imperativo ir além da compreensão intelectual da Qabalah, já que os primeiros passos da criação transcendem a mente e só podem ser vividos, compreendidos e contemplados através do corpo, através dos sentimentos , algo que antecede o racional e para ele confere bases.
A proposta deste primeiro momento é meditar sobre Ain e seu desdobramento em Ain Soph e Ain Soph Aur. Eu devo dizer que é desafiador, minha prática mostrou que tocar Ain é ameaçar romper as barreiras egóicas que separam o “Eu” do “Outro” e se diluir no todo. Segundos desta experiência se tornam insuportáveis por tamanha gama de informações que nossa consciência Divina acessa e que não pode ser simplesmente traduzida para a consciência física num primeiro momento. Então aos poucos vamos bebendo da fonte primordial, testando os limites de nosso Ego para que passo a passo possamos ir e voltar deste estado com segurança, confiança e voltarmos com aprendizado, sabedoria e compreensão abrangente, em todos os níveis de nosso ser.
Claro que muito do que eu escrevi pode mudar conforme eu for avançando no aprendizado. Estas foram as minhas anotações e insights da primeira aula, podemos juntos construir um conhecimento mais sólido sobre cada etapa deste processo.
Namastê

sábado, 10 de março de 2012

A Sombra do Arcano: O Sol.


É dito que para que exista sombra, há de existir luz. Fato.
O que é melhor do que o Sol para falar sobre sombras? Este é o meu Arcano favorito.. e nele encontro sempre muito apoio, mas como o próprio sol, tem seu lado sombrio. Ontem na praia vivi um pouco disto.. estou todo queimado, um pimentão, por resolver meditar na areia da praia, esquecer do tempo (e de renovar o protetor solar).
Bem, como tenho escutado muito Florence + the Machines, uma música me remete muito ao lado obscuro da luz. "No Light, No Light", no refrão já detona: 

"No light, no light in your bright blue eyes
I never knew daylight could be so violent
A revelation in the light of day
You can't choose what stays and what fades away"

"Sem luz, Sem luz nestes seus olhos azuis,
Eu nunca soube que a luz do dia podia ser tão violenta
Uma revelação na claridade do dia,
Você não pode escolher o que fica e o que vai..."

Eu vejo está música como a Sombra dO Sol pelo fato de muitas vezes, claridade dói, assim como uma verdade, nua e crua exposta a olhos despreparados. É, O Sol como um todo bom Arcano tem este poder de definhar, de destruir e nos fazer fechar os olhos para o que realmente importa. Como dizClarice, "As coisas estavam de algum modo tão boas que podiam se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode, apodrecer."


sábado, 3 de março de 2012

Herne e o Instinto do Sagrado Masculino

           Herne é um Deus muito curioso no panteão Celta-Bretão, infelizmente na tradição celta o conhecimento todo era passado oralmente, onde os Bardos eram treinados por anos nas canções, prosas e poemas no que concerne a cultura de um povo. Somente com a conquista e invasão cristã é que o conhecimento começou a ser escrito, mas até isso acontecer muito se perdeu. Na Irlanda ainda existem livros que relatam de maneira fiel a crença do povo celta, já em Gales a empreitada não teve muito sucesso sendo que o único livro escrito sobre é o Mabinogion, que fica óbvio pra quem lê de que seus contos não carregam o espírito de suas lendas.
                Mas como então sabe-se tão pouco sobe Herne e tanto sobre outros Deuses celtas? Janet e Stewart Farrar em “The Witche’s God” discutem sobre a possibilidade de que este Deus fosse um Deus do povo e não tanto das classes mais elevadas, das quais os Bardos retratavam em suas canções.
                Herne é geralmente descrito como um homem com chifres de cervo, acompanhado por animais, segura o Torc circular em uma de suas mãos e uma serpente em outra como retrata o caldeirão de Gundestrup:



                Suas funções e atribuições recaem sobre a caça, a fertilidade e ainda aos mistérios do instinto masculino. A idéia de um caçador chifrudo remonta os tempos muito antigos, as pinturas das cavernas mostram este homem coberto com peles de animais em cenas que lembram uma cerimônia. A idéia era que o caçador deveria se identificar com sua caça, o cervo, com o objetivo de apaziguar seu espírito dominante. Este é o mistério mais antigo do mundo: o caçador e a caça deveriam ser um só.
A transformação em natureza animal seja a de touro, cervo, cavalo, javali, gato, pássaro ou peixe, aparece com freqüência nos contos celtas. A identificação xamânica com animais se refletia claramente no culto celta, inclusive, nos tempos do cristianismo.
Segundo Justino, os celtas tinham mais maestria na arte da adivinhação do que qualquer outro povo de seu tempo e atinham-se a ela cegamente. Foi uma revoada de pássaros que guiou os galeses que invadiram Illyricum. Em outra ocasião, a maneira de voar de uma águia convenceu um rei que deveria regressar de uma expedição e evitar um desastre. Se houvesse algum litígio entre duas pessoas, cada uma colocava alguns pastéis sobre a mesa, de modo que não houvesse confusão sobre a propriedade de cada grupo de pastéis. Os corvos vinham, pousavam na mesa, comiam vários deles e beliscavam e inutilizavam um a um. O litigante cujo pastel tivesse sido apenas beliscado era o ganhador da causa.
Partindo deste contexto Herne se torna o poder que cada homem tem dentro de si de interpretar acontecimentos ao seu redor e seguir o seu instinto, algo muito parecido com a intuição (mas esta, claramente referida as mulheres como “intuição feminina”) e cabe a nós, homens, resgatarmos este conhecimento ancestral que vem de dentro, das entranhas físicas e espirituais, utilizando-se desta ferramenta para fazermos as nossas escolhas o mais consciente possível quando as probabilidades ainda são incertas.
Os caçadores identificavam os rastros de sua presa, colhiam informações no ambiente, mesmo que de maneira inconsciente, abriam-se ao que a floresta tinha a lhes dizer sobre que direção seguir e mais ainda, sobre até onde poderiam ir. O homem como Macho Sagrado está totalmente desperto do impacto de suas ações no mundo ao seu redor, caça somente o que lhe é necessário, é livre da ganância e egoísmo, pois realiza um trabalho em prol de sua comunidade. Herne ainda é um poder misterioso para muitos homens, mas um Deus extremamente visceral, vivo e próximo de nossas vidas. Herne representava a masculinidade popular de uma época, era o poder do caçador, do nutridor, daquele que compreende o poder da Deusa e respeita o seu equilíbrio, é através dele que a balança também é ajustada, é um instrumento divino.
Sendo meio homem, meio animal, consegue preservar o melhor de dois mundos, está aliado a sua natureza instintiva e consegue direcioná-la de acordo com a sua natureza racional e por este motivo é o ideal de xamã, de bruxo, aquele que cruza os mundos, aquele que lê os sinais.
O chamado dos Gamos, cantado por ancestrais celtas, relembram o nome do Deus “HHH-ERRRN”. Este Deus está associado ainda aos parques de Windsor, onde segundo relatos, ele aparece em tempos de crises, coroado com os chifres do Gamo e liderando a caçada. 

Prática com Herne – Abrindo-se aos sentidos.

Este exercício é muito simples mas com um desdobramento sem tamanhos no cotidiano de quem o pratica. É através dele que abrimos portas para deixar que nosso instinto nos revele e nos oriente frente a caçada do dia-a-dia.
Vá para um lugar a céu aberto, de preferência perto de árvores, plantas e se puder, rios e riachos. Concentre-se e centre-se, abra todo o seu campo energético para a vida pulsante ao redor. Reconheça o divino em tudo e reconheça o divino em você, reconheça que tudo é um. Respire lenta e profundamente, sinta o cheiro do ar, inspire e expire. Inspire através de seus olhos, abra-os para a beleza das cores, inspire pedindo que seus olhos possam ver o mundo mágico ao redor, que eles possam se deleitar com as cores, com as formas, inspire através de seus ouvidos, para que eles possam escutar a música das esferas, o som dos pássaros, o som do bater de seu coração, o som de sua respiração, para que eles possam ouvir atentamente quem procura um ouvido amigo, inspire pela sua boca, para que ela possa sentir os sabores do mundo, deliciar-se com cada palavra que sai, para que elas possam nutrir o ambiente de maneira positiva, inspire pela sua pele, pela ponta de seus dedos, para que você possa sentir o mundo através do tato, para que cada toque seja uma oração carregada de carinho e amor, para que você esteja atento a cada momento, presente no aqui e agora, para que você reconheça que o seu corpo é sagrado, respire pelo seu nariz, abrindo-se aos aromas do mundo, aos cheiros que envolvem cada lugar, cada pessoa, cada objeto, abra-se para as questões que seus sentidos trazem, que lugar que este cheio te lembra? Qual o gosto desta cor? Qual o som deste sabor?
Agora se dirija a uma árvore, planta ou pedra, esteja presente, inteiro neste momento, pergunte ao Deus que habita neste outro quais ensinamentos ele pode te passar, Sobre o que ele quer conversar, como ele esta se sentindo. Troque experiências, troque amor, troque sabedoria, abra-se para o conhecimento que o mundo tem pra te passar, um conhecimento velado, disponível a todos que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir.
Conecte-se a Herne, ao Deus do instinto, Deus da vida selvagem e peça para ele despertar o selvagem em você. Ser selvagem é ser criativo, espontâneo e divino.