segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Força: Coragem.


Sempre que penso nessa carta eu me lembro do Leão medroso das histórias de Oz. Ele por si só é um animal que não necessitava de muito para conseguir impor sua vontade ao redor, afinal é o rei da selva! Mas algo lhe faltava, a coragem.

Coragem, como dito no texto Piramide de poder: água tem o mesmo radical do que a palavra coração e para se ter coragem é preciso primeiro reconhecer que se sente medo. Este Arcano mostra antes de qualquer coisa uma relação entre uma pessoa e um animal (geralmente) mas vai muito além disto é uma relação consigo mesmo. Para abrir a boca do leão é preciso reconhecer o potencial perigo neste ato e então fazer a escolha. Ir ou não ir? Aceitar ou não aceitar? Enfrentar ou recuar? Escolher em si é um ato de coragem, exige muita raça para se assumir a responsabilidade da escolha, no final das contas nos tornamos o próprio leão que enfrentamos.

As cartas modernas mostram a personagem, geralmente feminina, perto de um animal selvagem, ambos em postura calma, pacifica, convivendo um com o outro, mas nem sempre foi assim. As cartas mais antigas mostram a mulher utilizando-se de sua força para abrir a boca do leão, isso sim é um ato de valentia. Um deck moderno que tem a mesma conotação em sua imagem é o “Dark Grimoire” no qual a personagem conjurou um demônio e com sua vontade o mantém afastado. Perfeito.

Muitas vezes as nossas feras são conflitos internos e vejo muito esse paradigma refletido na simbologia do numero (eu escolhi seguir os decks em que a força é o Arcano 8, como devem ter reparado pela seqüência dos posts). O número 8 é o infinito, é o que se interioriza para se exteriorizar, é a dinâmica da subjetivação – objetivação, a mais pura dialética.

A força na minha vivência se refletiu em eu me permitir entrar em contato com os meus próprios conflitos internos, deixar que eles se exteriorizassem para se tornar algo mais, para que eu pudesse lidar com eles de uma maneira melhor, abrir o coração, com coragem e valentia, enfrentar meu leão interno e vencê-lo.

Eu sempre pensei no leão como o nosso self mais primitivo, mais instintivo, onde nossos traumas ficam registrados e por isso muitas vezes ficam pairando ao nosso redor influenciando nossas decisões. Nossa fraqueza é deixar que eles se tornem monstros, dos quais é mais doloroso nos livrarmos deles do que deixá-los como estão. É como o espinho no pé do dragão, incomoda quando está lá, mas para tirar é um sacrifício. É como diz Clarice Lispector “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

Um comentário:

  1. Eu simplesmente amei, é bem a linha das minhas ultimas reflexões, eu preciso muito aprender a não temer os leões que surgem, nem deixar de agir por medo, assumir os riscos e seguir em frente. Você citou Clarisse e eu completo com Vinicius

    "Resta. . .esse eterno levantar-se depois de cada queda, essa busca de equilíbrio no fio da navalha, essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo infantil de ter pequenas coragens."

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