quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Hierofante: Instinto.

Este Arcano sempre foi uma carta meio incompreendida por mim, sentia uma aversão por ela, algo que não me fazia sentir bem. Isso aconteceu no inicio de meus estudos com o tarot, comecei com o Deck de Marselha e O Hierofante é muito parecido com um bispo cristão e com artigos religiosos do cristianismo que não me faziam bem. Não tenho nada contra a religião cristã pra ser sincero (e nem a favor), o que eu não curto muito é a Igreja. Enfim, essa discussão voltou à tona durante essa semana de meditação com esse arquétipo.

Antigamente, nos primeiros Decks de Tarot essa carta era chamada de O Papa, isso por que a única, ou talvez a mais forte representação deste Arcano fosse a Igreja católica. Esta carta vinha para falar de tradição, religiosidade, espiritualidade e até um pouco sobre rigidez. O Papa realmente era a melhor representação disso tudo. Como tudo com o tempo muda, essa carta também foi mudando, eu percebi (até agora) que ela foi a que mais mudou, não só o seu nome, mas o seu significado também. Aos poucos ela passou para O Hierofante, um cargo sacerdotal de responsabilidade e respeito, nessa palavra está intrínseca muita sabedoria, muita experiência de vida, hoje em dia eu já vi outras representações para este Arcano, no Gaian Tarot ele é o Professor, no Wildwood ele é A Ancestralidade. Achei lindo isso, as cartas representando a mudança social/espiritual do mundo, e a mudança de visão espiritual foi uma das coisas que mudou e tem causado maior impacto atualmente.

Duas cartas me chamaram muita a atenção da minha coleção de Decks. A primeira, que desde que comprei o baralho me casou muito impacto foi a do Wildwood Tarot, A Ancestralidade. Nossa, quando vi essa carta pela primeira vez tive um sentimento estético (como dizem em psicologia social), um impacto contraditório tão grande, falou comigo de maneira intima e certeira, como um soco no estomago. A imagem é rica em simbolismo ancestral e sua personagem é claramente andrógina. Depois a carta do Shadowscapes, que é representada de maneira tão linda e poética por uma árvore.

Muitas coisas aconteceram durante essa experiência, a primeira delas foi um pouco da compreensão da carta A Ancestralidade e como isso se liga com a energia do Hierofante. Lendo o livro “Choirs of the God” Organizado por John Matthews, tive um insight precioso e não acho que foi por acaso, já que ele próprio teve grande influencia na construção do Wildwood Tarot. No artigo “O Falcão, o cavalo e o Cavaleiro” o autor Robert Bly coloca sobre o Cavalo “Pelo termo ‘Cavalo” entende-se a parte mais instintiva, com mais vontade que o cavaleiro ou menos obediente as ordens deste, mais associado com a parte física, instintual, muscular, hormonal, corporal do que com a parte alerta e criativa do cavaleiro. O ‘cavalo’ não está tão aberto a mudança, ele contem padrões conhecidos por milhares de anos, talvez milhões de anos. Podemos dizer que o ‘cavalo’ está intimamente ligado com os ancestrais, dificilmente consciente de alguma nova invenção desde a flecha. O ‘cavalo’ é lento, conservador, poderoso e muitas vezes mais forte que o cavaleiro”. Bingo!

Ainda sobre isso eu, durante as minhas práticas na Tradição Feri liguei esse conceito ao conceito de Self-Jovem, Fetch ou “grudento” como gosto de chamar. Starhawk coloca sobre ele em seu livro “Dança cósmica das feiticeiras” o seguinte: “O self mais jovem - pode ser tão teimoso e obstinado quanto a mais impertinente das crianças aos três anos de idade - não se impressiona pelas palavras. Incrédulo como se diz dos naturais do Missouri, ele quer ser mostrado. Para despertar o seu interesse, devemos seduzi-lo com bonitas imagens e sensações prazerosas, como se fossemos levá-lo para jantar e dançar. Somente deste modo o self mais profundo pode ser alcançado. Por essa razão, verdades religiosas não têm sido expressadas, através dos tempos, como fórmulas matemáticas, mas na arte, música, dança, teatro,poesia, narrativas e rituais. Como afirma Robert Graves: "Os princípios religiosos, em uma sociedade saudável, são mais bem executados por tambores, luar, jejum, dança,máscaras, flores, possessão divina."

O Hierofante gosta de rituais, gosta de velas e parafernálias pois isso tem ligação direta com o nosso inconsciente, com a nossa parte mais profunda, onde a magia acontece. Este Arcano tem ligação com a tradição, com as coisas que nos põe em contato com a nossa história e ancestralidade, com a parte sábia e experiente da nossa humanidade. Alguns chamam isso de instinto, outros chamam de inconsciente coletivo, mas independente do que for, algo em nosso DNA tem as respostas e as ferramentas que precisamos para acessar nosso potencial grandioso.

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