terça-feira, 9 de agosto de 2011

Ser ou não Ser: Eis a questão.


Sempre digo que para sermos algo, temos que entender o que é esse algo, senão perde o sentido. O que é ser Brux@? Para descobrir fui atrás do significado da palavra, de onde veio, qual a origem e a que se referia. Segundo a Wikipédia (e também uma cientista em línguas amiga minha) a palavra Bruxo/a, com raiz Brux e "O vocábulo Bruxa é de orígem desconhecida provavelmente de orígem pré-Romana. No entanto existe uma provável relação com os vocábulos proto-celtas: *brixtā (feitiço), *brixto- (fórmula mágica), *brixtu- (magia); ou o Gaulês: brixtom, brixtia do qual deriva o nome da deusa Gaulesa Bricta ou Brixta.” Bricta esta ligada intimamente com a Deusa Sirona, relacionada a cura e transformação, muitas vezes consorte de Apollo Borvo ou Apollo Grannus. Bricta também está relacionada com Bright, uma Deusa da cura, inspiração e das nascentes. A influência solar que rodeia esta palavra é grande. Pesquisando mais a fundo, o nome Sirona está ligado com o radical proto-celta Ster, que é ligado à palavra estrela. Relacionando a Deusa às estrelas, à noite e seus mistérios. Em resumo, a palavra bruxo ou bruxaria está relacionada profundamente com cura e transformação.
Buscando referencias históricas os bruxos, xamãs, curandeiros, parteiras eram figuras centrais em sua aldeia (e onde existem ainda são!), ofereciam a comunidade serviços de cura, auxilio e aconselhamento, mediando, sendo o instrumento e intermédio do qual os Deuses e espíritos se comunicavam, era através destas pessoas que decisões eram tomadas, a aldeia preservava seus costumes e mantinha suas crenças de acordo com seus rituais. O conhecimento de ervas, do movimento das estrelas e ciclos da lua bem como os ciclos do sol, nascimento e morte, ritos de passagem, agricultura, tudo isso era relacionado com o trabalho do bruxo da aldeia.
Conforme nossa sociedade foi evoluindo, muitas coisas mudaram, começamos a sair de uma vida centrada no campo para uma vida mais urbana, em Roma os que viviam no campo eram chamados de Paganus, literalmente vida no campo e os que viviam na cidade eram chamados de Urbanus, vida na cidade. Obviamente os que viviam nos campos mantiveram suas crenças e seus costumes, estavam muito mais em contato com os ciclos da natureza, o seu alimento vinha da terra e suas crianças vinham pelas mãos de parteiras experientes, suas esposas sobreviviam ao nascer de um filho pelas ervas, cuidados e higiene dessas sábias senhoras. Tudo mudou, pois tudo sempre muda. Eventos importantes, políticos, marcaram esta mudança e o principal deles foi o estabelecimento da religião oficial do império ser o cristianismo, não foi o único, mas que muitos preferem lembrar até hoje.
E hoje em dia, o que é ser bruxo? Se para o parto e doenças temos os médicos, para a saúde psicológica temos psicólogos, para ensinar temos professores, o que é ser um bruxo na modernidade e se as funções mudaram, qual o motivo da palavra continuar sendo usada, já que está machada de pré-conceitos e mal-entendidos construídos historicamente? Starhawk coloca em seu livro “A dança cósmica das feiticeiras” que a palavra bruxa deve continuar sendo usada pois é necessário que os significados errôneos atribuídos a ela sejam modificados, as mulheres se sentem fortalecidas e os homens se permitem honrar os mistérios da natureza e de si mesmos quando evocam a origem desta palavra. Ao honrar a palavra Bruxo, honramos nossos ancestrais, curandeiros, parteiras, mestres e todos os que morreram nas fogueiras políticas da inquisição, sendo eles bruxos ou não. Eu gosto desta explicação. Precisamos (re)atribuir significado a essa palavra e tomar partido da causa. Ser bruxo atualmente é reconhecer os ciclos e viver de acordo com eles, é viver em harmonia com a natureza, é respeitá-la e respeitar a tudo e a todos como sagrados, pois somos todos iguais, é orientar e praticar ações que fortaleçam esse vínculo, é uma religião, no sentido Religare, é religar o homem com sua origem, a natureza.
Um bruxo compreende que não está sozinho no mundo, que as coisas não estão aqui para servir a humanidade, mas para que possamos em harmonia viver juntos, animais, plantas e elementos, é reconhecer que todos tem direito ao acesso a comida, água, ar limpo, é lutar por isso, pois somos sagrados como tudo o é! Ser bruxo é reconhecer o divino no próximo, é celebrar a vida e as oportunidades, é ser um eterno aprendiz, é através do seu trabalho transformar o mundo em um lugar melhor, ser a mudança que quer ver no mundo, dar o primeiro passo. É reconhecer e saber trabalhar com as energias ao seu redor, é honrar a lua e seus ciclos, é saber quando plantar e quando colher, é plantar escolhas responsáveis e se comprometer em colher as suas conseqüências, é saber que o sol tem seus ciclos assim como cada coisa viva, é reconhecer o padrão, ter vista panorâmica e se permitir viver este momento do agora. Ser um bruxo é amar a terra como nosso lar, é aceitar suas bênçãos, é ser consciente e ativo na transformação da sociedade, é reconhecer seus erros, suas falhas, é amar seu corpo, amar o outro, é gostar de fazer sexo e celebrar a sexualidade, é viver as diferenças e enxergar que elas são provas da criatividade divina, que nunca faz duas coisas iguais, é ser criativo e espontâneo, é reconhecer que existe muito para se aprender. É reconhecer e honrar nossos ancestrais, celebrar o passado e cultivar o futuro no agora.
E sim, para aqueles que buscam pensam que bruxo é ter poderes sobrenaturais, sim, vocês estão enganados pois nada existe que esteja fora da natureza. As habilidades e sensibilidade energética são capacidades humanas naturais, intuição pode ser exercitada e o futuro e passado se mesclam com o agora. Um bruxo é tão paranormal quanto qualquer outra pessoa.

E mais importante, um bruxo oferece trabalhos a comunidade, ele a nutre e a transforma, começa por si e depois expande para os que o circulam, sutil ou não, mas seu trabalho inspira a mudança e transformação. Ser um bruxo é estar comprometido com a mudança. É ser quem se é e acreditar que isso vai te levar longe, é estar em paz consigo mesmo. Ser um bruxo é muita coisa, mas principalmente é acreditar na imanência, na comunidade e na essência criadora. Isso é muito do centro de nossa crença, a partir disto muitas tradições variam em número, gênero e as vezes grau. Muitos podem discordar desta forma de visão, e está tudo bem, mas o importante é saber o que se esta celebrando.
O movimento #EuSouBruxo ressalta a importância de se tomar partido nesta empreitada, é como a reflexão com A Sacerdotisa me trouxe, é preciso vencer preconceitos em nome da nossa prática, desmitificar e clarear práticas e conceitos. Por isso sou a favor da causa, me orgulho de ser um bruxo pois foi isso que me trouxe onde estou, isso que me deu suporte quando precisei e é nas minhas crenças que me agarro nas alegrias e tristezas. Eu pelo menos tenho o que seguir, muitos estão perdidos, quem vive mais feliz?

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