terça-feira, 26 de julho de 2011

O Louco: Sonhador de Mistérios.

Durante esta semana que se passou dei inicio a uma prática que já havia realizado algum tempo atrás: Viver os arcanos do Tarot por uma semana. Durante este tempo a proposta é meditar sobre, fazer trabalhos de transe, escrever poemas, histórias, músicas, práticas que visem entrar em sintonia com a carta, assumir postura e claro, registrar tudo isso num diário. Cada arcano é único e por isso cada vivência e cada experiência também serão únicas, mas o que na minha prática vai continuar igual é que vou juntar todas os arcanos “O Louco” de todos os decks de tarot que eu tenho para conseguir ter diferentes pontos de vista sobre uma mesma mensagem. Para a vivência dO Louco eu planejei pouca coisa, e já adianto que nada saiu como o planejado, como não se era esperado. A intenção aqui não é ser pedagógico e sim compartilhar experiências, aprender ao invés de ensinar, comigo mesmo e com os leitores que quiserem compartilhar suas idéias.

Tudo começou quando organizei Os Loucos dos meus Decks, entrei na energia e me identifiquei com eles, tentei entender o momento deste arcano e selecionei como o louco principal o “The Wanderer” do “Wildwood Tarot” para os trabalhos de transe, pois sempre senti que o seu simbolismo é muito próximo da minha prática espiritual, é crua, instintiva e viva, conectada com a natureza, mas outro deck me chamou muito a atenção, o “Afro-brazilian religions Tarot” no qual ele é representado pelo Exú. Isso me fez cair a primeira ficha, o louco é o mistério, o Grande 0, sem inicio nem fim, nem a primeira carta e nem a última, não é numerado pois fazer isso seria desconectá-lo e quantificar essa energia, O Louco do “Wildwood” representa isso perfeitamente e de uma forma belíssima, ele é andrógino, claramente homem e mulher, criança e adulto.

O Exú tem um pouco disto, na liturgia do candomblé o orixá Exú é que se prontifica a se colocar em equilíbrio com todos os outros orixás, principalmente com Oxalá, se tornando o guardião do caos e da escuridão, dos mistérios. Liguei muito isso com a definição de Mistério que a Starhawk coloca em seu livro “Truth or Dare”, que é o selvagem, livre, inesperado, o que não pode ser controlado”. O louco é um pouco (ou muito) disto, é espontâneo, livre, criativo, inconseqüente e corajoso. No fundo é a busca e o resultado, o inicio e o fim, os meios e os fins, é entrega, é confiar e é ter medo também, “Onde há medo, há poder” um conhecido ditado da Tradição Feri, poder fazer diferente, poder viver isso de outra maneira, poder reconhecer e enfrentar seus medos, seus paradigmas e pré-conceitos.

O Louco está relacionado com o Ar, segundo o Thot Tarot, é andrógino, e no Olympus tarot é Pã, algumas vezes é Bacco, outras vezes é Zeus. E é legal ver isso representado graficamente, a maioria dOs Loucos tem um animal por perto, representando ao meu ver esse acesso a nossa própria natureza instintiva, animal, pura. Pã me mostrou muito isso, de deixar as coisas acontecerem, deixar o prazer fluir e me disse “Se joga e arraza!”. Eu me joguei, duas vezes, a primeira em um trabalho de transe, onde revivi uma experiência, uma lembrança, onde fiz a subida do Monte Crista, uma trilha de mais ou menos 8h de caminhada para chegar ao topo de um Morro, um lugar lindo e extremamente mágico e poderoso, onde pela primeira vez eu vi um precipício, relembrei o medo de cair, de morrer, mas em transe fiz diferente, me joguei, repetidas vezes, algumas delas eu me empurrava, outro simplesmente caia, algumas vezes eu me segurava, outras era engolido pela escuridão.

Vivi a experiência de ser aniquilado, a cobra do “Art Noveau Tarot” me engolindo, me sufocando, a planta carnívora querendo me devorar, o selvagem, o instinto em mim gritando e querendo fugir, lutar pra viver. O Louco historicamente é o mendigo, o andarilho, o bobo da corte, a aniquilação do Eu egóico, da máscara, é o Exú, negro e temido, imprevisível, a noite, cega e que nos pega de surpresa é o cão que nos morde a perna, nosso fiel aliado.

Entreguei-me pela segunda vez quando vendei meus olhos para uma experiência única neste final de semana, com pessoas que não conhecia, vivi coisas que nem eu esperava, tive que confiar, caminhar por trilhas e lugares estranhos, desconhecidos, tudo de olhos vendados, como esperar o inesperado? Senti medo, prazer, adrenalina a mil, dei passos de formiga e esperei, tive paciência, apanhei, doeu, gostei, aprendi muito sobre mim mesmo, erotismo e amor-próprio, como se entregar e deixar acontecer? Foi uma prática preciosa. Voltei a ser criança e brinquei de me equilibrar no meio fio, de deixar aflorar essa inocência que critica a sociedade moderna, essa louca vida adulta, rígida e nonsense.

Leisa ReFalo coloca em seu podcast “Tarot For the Ipod” que o louco carrega em sua bolsa os instrumentos que representam os quatro elementos e que mesmo que mesmo que ele não saiba para que servem, ainda assim fazem parte dele. Aprendi durante essa semana que errar dói, mas se permitir errar dói menos do que se exigir perfeição, essa semana me permiti sentir preguiça, sono, raiva, ser impulsivo e rancoroso, sentimental e egoísta, me permiti ser eu mesmo, ser claro e honesto, a ser luxurioso e aventureiro. No meu trabalho vi que as vezes precisamos “Dar uma de Louco” e surtar, na cozinha vi que o louco é o experimentar novas receitas, criar, misturar, no Kung-Fu o louco me mostrou o quão gostoso é rir de mim mesmo, O Louco ensina sempre, pois esta sempre conosco, é o indivisível, é o zero, é tudo e/ou nada. Qual você escolhe?

4 comentários:

  1. Já fiz essa prática... É ótima!!!
    Beijosss

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  2. Pra Ilustrar, contribuição riquissima da Érika Zanoni, http://www.youtube.com/watch?v=gLQrbo_i2Zw&feature=player_embedded#at=71 Forrest Gump!

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  3. Adorei a prática, vou experimentar...
    O Louco é exatamente isso, tem um conhecimento imenso, mas, todo guardado... e apesar de em muitos decks ele ser representado como o Bobo da corte, tem "bobo" ele não tem nada. O Louco é a ingenuidade, a criança, não faz por mal, sem interesse próprio, age por impulso. O bobo da corte, tinha mesmo que ser muito esperto, pois fazer piadas da corte e para a corte sem ter o pescoço cortado não devia ser fácil não...
    Compartilho com vc um texto inspirado no Louco: http://sanctorini.blogspot.com/2010/04/o-louco.html

    Beijos

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  4. Bruno, mto legal seu post... O Louco sempre é o arcano que mais me fascina. Interessante demais essa relação dele com o Exú, desse vagar entre a luz e as sombras...

    Sempre tenho essa idéia do louco, do caos original, do Self mais profundo, desprovido dessa vozinha do ego que fala na nossa cabeça o tempo inteiro e tal. Nesse mundo nosso que o povo reforça todo tempo o ego, é quase obrigação dar uma de doido...

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