terça-feira, 26 de julho de 2011

O Louco: Sonhador de Mistérios.

Durante esta semana que se passou dei inicio a uma prática que já havia realizado algum tempo atrás: Viver os arcanos do Tarot por uma semana. Durante este tempo a proposta é meditar sobre, fazer trabalhos de transe, escrever poemas, histórias, músicas, práticas que visem entrar em sintonia com a carta, assumir postura e claro, registrar tudo isso num diário. Cada arcano é único e por isso cada vivência e cada experiência também serão únicas, mas o que na minha prática vai continuar igual é que vou juntar todas os arcanos “O Louco” de todos os decks de tarot que eu tenho para conseguir ter diferentes pontos de vista sobre uma mesma mensagem. Para a vivência dO Louco eu planejei pouca coisa, e já adianto que nada saiu como o planejado, como não se era esperado. A intenção aqui não é ser pedagógico e sim compartilhar experiências, aprender ao invés de ensinar, comigo mesmo e com os leitores que quiserem compartilhar suas idéias.

Tudo começou quando organizei Os Loucos dos meus Decks, entrei na energia e me identifiquei com eles, tentei entender o momento deste arcano e selecionei como o louco principal o “The Wanderer” do “Wildwood Tarot” para os trabalhos de transe, pois sempre senti que o seu simbolismo é muito próximo da minha prática espiritual, é crua, instintiva e viva, conectada com a natureza, mas outro deck me chamou muito a atenção, o “Afro-brazilian religions Tarot” no qual ele é representado pelo Exú. Isso me fez cair a primeira ficha, o louco é o mistério, o Grande 0, sem inicio nem fim, nem a primeira carta e nem a última, não é numerado pois fazer isso seria desconectá-lo e quantificar essa energia, O Louco do “Wildwood” representa isso perfeitamente e de uma forma belíssima, ele é andrógino, claramente homem e mulher, criança e adulto.

O Exú tem um pouco disto, na liturgia do candomblé o orixá Exú é que se prontifica a se colocar em equilíbrio com todos os outros orixás, principalmente com Oxalá, se tornando o guardião do caos e da escuridão, dos mistérios. Liguei muito isso com a definição de Mistério que a Starhawk coloca em seu livro “Truth or Dare”, que é o selvagem, livre, inesperado, o que não pode ser controlado”. O louco é um pouco (ou muito) disto, é espontâneo, livre, criativo, inconseqüente e corajoso. No fundo é a busca e o resultado, o inicio e o fim, os meios e os fins, é entrega, é confiar e é ter medo também, “Onde há medo, há poder” um conhecido ditado da Tradição Feri, poder fazer diferente, poder viver isso de outra maneira, poder reconhecer e enfrentar seus medos, seus paradigmas e pré-conceitos.

O Louco está relacionado com o Ar, segundo o Thot Tarot, é andrógino, e no Olympus tarot é Pã, algumas vezes é Bacco, outras vezes é Zeus. E é legal ver isso representado graficamente, a maioria dOs Loucos tem um animal por perto, representando ao meu ver esse acesso a nossa própria natureza instintiva, animal, pura. Pã me mostrou muito isso, de deixar as coisas acontecerem, deixar o prazer fluir e me disse “Se joga e arraza!”. Eu me joguei, duas vezes, a primeira em um trabalho de transe, onde revivi uma experiência, uma lembrança, onde fiz a subida do Monte Crista, uma trilha de mais ou menos 8h de caminhada para chegar ao topo de um Morro, um lugar lindo e extremamente mágico e poderoso, onde pela primeira vez eu vi um precipício, relembrei o medo de cair, de morrer, mas em transe fiz diferente, me joguei, repetidas vezes, algumas delas eu me empurrava, outro simplesmente caia, algumas vezes eu me segurava, outras era engolido pela escuridão.

Vivi a experiência de ser aniquilado, a cobra do “Art Noveau Tarot” me engolindo, me sufocando, a planta carnívora querendo me devorar, o selvagem, o instinto em mim gritando e querendo fugir, lutar pra viver. O Louco historicamente é o mendigo, o andarilho, o bobo da corte, a aniquilação do Eu egóico, da máscara, é o Exú, negro e temido, imprevisível, a noite, cega e que nos pega de surpresa é o cão que nos morde a perna, nosso fiel aliado.

Entreguei-me pela segunda vez quando vendei meus olhos para uma experiência única neste final de semana, com pessoas que não conhecia, vivi coisas que nem eu esperava, tive que confiar, caminhar por trilhas e lugares estranhos, desconhecidos, tudo de olhos vendados, como esperar o inesperado? Senti medo, prazer, adrenalina a mil, dei passos de formiga e esperei, tive paciência, apanhei, doeu, gostei, aprendi muito sobre mim mesmo, erotismo e amor-próprio, como se entregar e deixar acontecer? Foi uma prática preciosa. Voltei a ser criança e brinquei de me equilibrar no meio fio, de deixar aflorar essa inocência que critica a sociedade moderna, essa louca vida adulta, rígida e nonsense.

Leisa ReFalo coloca em seu podcast “Tarot For the Ipod” que o louco carrega em sua bolsa os instrumentos que representam os quatro elementos e que mesmo que mesmo que ele não saiba para que servem, ainda assim fazem parte dele. Aprendi durante essa semana que errar dói, mas se permitir errar dói menos do que se exigir perfeição, essa semana me permiti sentir preguiça, sono, raiva, ser impulsivo e rancoroso, sentimental e egoísta, me permiti ser eu mesmo, ser claro e honesto, a ser luxurioso e aventureiro. No meu trabalho vi que as vezes precisamos “Dar uma de Louco” e surtar, na cozinha vi que o louco é o experimentar novas receitas, criar, misturar, no Kung-Fu o louco me mostrou o quão gostoso é rir de mim mesmo, O Louco ensina sempre, pois esta sempre conosco, é o indivisível, é o zero, é tudo e/ou nada. Qual você escolhe?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Imanência

"Imanente, Ela preenche todos os espaços de nosso ser com mistério e beleza: Está na planta que nasce, se espremendo pelas calçadas rachadas, ou no raio de sol que ilumina o céu. Imanência é a voz da brisa nas folhas das árvores, é a queda d'água em uma cachoeira e no encontro do mar com a areia. Imanência é um beijo, um toque, o fôlego. É o seu corpo no encontro de outro corpo no calor da luxúria e celebração.
O divino no mundo está também em cada um de nós e estabelece a relação com tudo o que nos rodeia. Na natureza nós vivenciamos o plural, o múltiplo: A natureza é o corpo no qual a diferença flui..."
T. Thorn Coyle - Evolutionary Witchcraft

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Redefinindo Sucesso - por T. Thorn Coyle













Traduzido do artigo “Redefining Success” por T. Thorn Coyle em: http://www.thorncoyle.com/2011/06/redefining-success/

Sucesso é gostar de si mesmo, é gostar do que você faz e de como você o faz” – Maya Angelou.

Amor e criatividade são fontes renováveis. Outras fontes são mais escassas e o medo ou a ignorância criam sistemas de injustiça e devastação. Estes processos nos fazem sentir sozinhos, com raiva, desconfiados, confusos ou como fracassados. Existem muitos meios de se alcançar o sucesso, talvez não o tipo de sucesso que você foi ensinado a valorizar. Redefinindo sucesso nós redefinimos nossa relação com a cultura de massas, com a sustentabilidade – a nova palavra de ordem – e com as idéias de escassez e abundância.

Um sentimento interior de escassez e pânico restringem o fluir da vida e limitam as nossas relações com o processo do cosmos. Sim, existe uma escassez externa. Sim, algumas fontes são finitas. Sim, às vezes nos sentimos tão abatidos e sobrecarregados que até o acesso ao amor e criatividade parecem limitados. Eu me compadeço disto. Eu também sei que temos que encontrar uma forma e de alguma maneira tentar, continuar tentando. Se alguns de nós, que vivem em relativo privilégio agem como se amor e criatividade fossem escassos, imagine uma pessoa que vive em situação de pobreza, conflitos de guerra ou qualquer outro lugar onde o medo e ignorância prevalecem? O medo e a ignorância estão em todo lugar, mas eles não precisam definir como vivemos e quem somos. Eles certamente não precisam definir quais são nossos valores.

Eu valorizo o seu desejo por amor, beleza, comprometimento e sucesso. Segue uma definição deste ultimo de acordo com o trabalho: Sucesso é o sentimento que alguém tem quando contribui para o mundo e em troca recebe amor e satisfação. Uma boa equação não é? É somente uma definição, mas tem funcionado pra mim neste momento. Alguns de vocês tem lutado contra isso, eu sei. Você diz “Eu trabalho tanto e não sinto amor!” Vamos respirar fundo juntos? Consegue perceber como o medo e o sentimento de escassez de amor te fecharam para perceber as coisas ao seu redor? Como você esta ancorando raiva e ressentimento? Quanto mais nós nos expandirmos, mantivermos abertos e nos liberando destes sentimentos, menos controle eles terão em sobre o fluxo do amor. Com o fluxo do amor, as coisas mais simples nos fazem sentir como se fossemos extremamente ricos: O sol nas folhas, água limpa, gentileza.

Alguns dos meus amigos dão um duro danado, a escassez mordendo seus calcanhares com uma mensagem constante que lhes fecham os olhos e ouvidos, “Faça, simplesmente faça, tudo é possível pra quem tenta com força de vontade! O que você esta esperando? A hora é agora! Aqui estão os meus 5 passos para o sucesso rápido!” mais e mais. Meias verdade, algumas inspirações, algumas vezes armadilhas do ego lutando contra a voz que diz “Mas e se realmente não estiver o bastante para ser alcançado?” E essa voz é parcialmente verdade também, não existe dinheiro o suficiente, ou ouro, ou óleo, ou comida ou água limpa, não nos níveis em que estamos usando, não com o padrão de relacionamento com os outros e com a terra. Mas temos a habilidade de mudar isso, não de aumentar as fontes em si, mas de mudar o nosso relacionamento com elas de uma maneira que nós podemos compartilhar melhor. Então aqui estamos, as voltas com uma redefinição de sucesso, um retorno as nossas fontes de criatividade e amor.

O que a sua alma deseja? Onde você se sente restringido? Como mudar a sua definição de sucesso te ajuda a ter mais paz? Que mudanças nos valores desta cultura de massas podem ser possíveis se você acreditar em si mesmo o suficiente para seguir o seu desejo de realização? Um sentimento de escassez e restrição interior não ajudam a aliviar nenhum padrão de escassez exterior. Respire fundo. Relaxe. Expanda. Organize-se ao redor do seu centro, escute a sua alma.

Eu amaria se todos nós reservássemos um tempo hoje para pensar e fazer um brainstorm juntos: Qual a sua definição de sucesso? E como eu posso me abrir para o amor e a criatividade, liberando o fluxo, criando um mundo no qual eu sinto orgulho de viver, compartilhando com aqueles que eu tenho orgulho de chamar de amigos?

Só para ilustrar: Quando eu procurei figuras para colocar neste texto digitei “Sucesso” na busca, tudo o que eu encontrei foi figuras de dinheiro, alto investimento, prédios de negócios e a casa suburbana tradicional. Em sua maioria foi dinheiro, dinheiro, dinheiro. Então eu digitei “Alegria” e encontrei figuras que definiam sucesso pra mim, incluindo a que eu usei aqui. É uma coisa bem complicada mudar a cultura de massas, mas nós temos a criatividade pra fazer acontecer.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Repensando Imbolc: Arte como instrumento de transformação.


Imbolc, que época mais gostosa de para apreciar a natureza, um “boas vindas” a primavera, onde tudo começa a ficar mais colorido, mais animado e a promessa de vida nova transpira em cada ser vivo com o toque fértil e gentil da terra. Este festival era a celebração do inicio da lactação das ovelhas, um período de nutrição e o início de uma fase próspera para os agricultores. Mas hoje em dia, que temos leite na geladeira, o que Imbolc representa? Se em Samhain foi uma “morte” e em Yule um “nascimento” Agora é hora de dar inicio a esta nova fase, o resguardo da Deusa já passou e agora precisamos aproveitar este potencial de vida que desabrocha a cada dia.

Este festival também é marcado pela lua cheia em leão, o fogo, o senhor e rei da floresta, que como estereótipo tem marcado a busca pela atenção e um narcisismo, por isso Imbolc também é uma época para valorizarmos nosso ser, agraciarmos nosso corpo, elogiarmos e nos tocarmos, sentir prazer com nossa companhia e criar! O fogo de Brigit é criativo, inspirador e nutritivo. Deixar a criatividade rolar, buscando inspiração na vida ao redor e em nós mesmos, celebrar este fogo divino, nossa herança, nossa essência, é celebrar a criatividade, criando nos aproximamos dos Deuses e exercemos nossa natureza que é produzir e espalhar nossa cria por todos os lados.

Criar é um ato muito especial e valoroso, durante o processo criativo absorvemos nossa realidade concreta, objetiva e através de nossa realidade pessoal, subjetiva a transformamos em algo novo, que carrega em si um pouco da pessoa que a criou e um pouco da realidade exterior, algo diferente e transformador.

A pessoa que cria o faz a partir das relações que experiencia em sua vivência social, atribui significado a esse mundo objetivo, tornando-o único e humanizando esse coletivo de maneira pessoal. Todo o processo de construção deste sujeito se dá em seu meio social e por isso a história deste contexto se torna a sua história de alguma maneira. O tornar-se humano compreende a capacidade de transformar e modificar a realidade, sendo mediado por palavras, escritas ou faladas, atos, movimentos e arte, neste processo de transformação e criação, a pessoa acaba se modificando, atribuindo novos significados a partir daquilo que se apropria, reorganizando seu meio através da expressão deste filhote seu, sua cria.

Para que seja possível a criação de algo novo, é necessário experienciar a realidade e a partir disto surgir a necessidade de se pensar em algo que supra certas carências deste real. A maneira como se sente a realidade e como a pessoa a percebe é determinante na mediação de toda e qualquer relação. Tudo o que acontece na fantasia e na imaginação influencia nos sentimentos que mesmo sendo incompatíveis com a realidade, não deixam de ser reais. Tudo o que nos rodeia, produzido pelo homem, foi em algum tempo fruto da imaginação humana, despertada a partir de necessidades, sentimentos e pensamentos. O mundo da cultura é produto da imaginação.

Imbolc também é um festival de purificação, luz solar e inspiração, é repensar nossa realidade e transformá-la pelo fogo criativo e divino, então uma ótima idéia é juntar as roupas de inverno, cobertores e sapatos que talvez não nos faça falta e doá-los a entidades carentes que façam melhor proveito, é doar-se em trabalhos comunitários e serviços sociais que tragam muito mais do que dinheiro, mas satisfação pessoal e enriquecimento da alma, é aliar-se a causas que nos tocam e mudam o mundo para melhor. O serviço comunitário, como coloca T. Thorn Coyle é o primeiro passo (e um passo constante) para aqueles que querem ser agentes de mudanças, líderes de comunidade e de círculos, pois nos coloca em contato direto com nossos semelhantes, nos lembra de nossa capacidade de servir com amor e respeito, nos ensina dignidade e afeto por todos que são nossos irmãos e tão especiais quanto cada um de nós. Cozinhas comunitárias são uma ótima pedida neste festival, pois celebram o alimento, a nutrição, o leite de Imbolc representado de diversas maneiras. Reconheça o fogo divino que queima em cada ser, em toda a criação e respeite, ame e espalhe esse amor.

Faça também uma limpa em sua casa, deixe a luz do sol entrar e o vento fresco que anuncia a primavera correr por todo o seu lar, faça uma movimentação física, muito mais do que energética para que a vida se mova pela sua casa também, livre-se aos poucos do que não te faz mais bem, do que foi utilizado em uma estação passada de sua vida e permita que um novo ciclo inicie em Imbolc.

Neste festival ame-se, cuide-se, celebre-se tanto e de tal maneira que a inspiração e criatividade transpire pelos seus poros, crie, escreva, dance e cante, celebre a sua vida e quando sentir-se totalmente amado por si mesmo, compartilhe esse amor com os outros, abrace, beije, faça amor e faça com que essa chama divina seja brilhante, reanime a chama divina no mundo, em cada um. Purifique-se, purifique seu lar, suas relações e sua comunidade, transforme o que você não precisa mais em algo útil para alguém ou alguma coisa, torne-se um pouco mais útil pra a sua comunidade recebendo em troca mais amor e afeição. Este festival é sobre você e sobre a maneira como você se ama e como isso afeta a maneira como você ama os outros e se permite criar, acessar a sua natureza criativa e tocar os outros, transformar os outros e nutrir a tudo e a todos com sua boa vontade e alegria de viver. A primavera está ai, aproveite!!

Namastê.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Mistérios...



"Mistério é o que é selvagem em nós, o que nunca é completamente previsível ou seguro. Mais velho e mais profundo do que a dominação ou controle, é o poder imanente do pulsar de um coração, do sangue, do respirar, sobrevivência e vida! Mas o que é selvagem em nós esta machucado. Para onde levamos um pássaro, lento e ferido para ser curado? Como o ensinamos a voar novamente?" Starhawk - Truth or Dare.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Pirâmide do Poder: Saindo do abstrato e indo para a prática!


A prática com os Elementos e mesmo com o desenvolvimento das qualidades mágicas tem variado muito e tem sido bem diversa nos últimos tempos, mas poucos são os exercícios que visam aprimorar e unir o manejo energético com a rotina e aprimoramento moral do bruxo num sentido mais prático mesmo. Se existem, existem sim! Mas muito das praticas dos elementos se caracterizam como meditações e vivências, a proposta deste treinamento é incorporar os elementos com a rotina do dia-a-dia. Existem muitas ferramentas das quais os bruxos se utilizam para o auto-aprimoramento e desenvolvimento de faculdades extremamente importantes para a magia, a pirâmide dos bruxos é uma delas. A primeira vez que me deparei com os pilares da pirâmide foi no Livro do Eliphas Lévi “Dogma e ritual de Alta magia” e mais adiante no livro “Dança Cósmica das feiticeiras” da Starhawk, mas só fui desenvolver uma senso prática destes com o Podcast do Ariel “A witche’s primer” e é em cima disto tudo que irei elaborar um texto prático e ilustrativo nessa serie que chamo de “Pirâmide do Pode: Saindo do Abstrato e indo a prática”. Pois além de ser um ótimo exercício para se conectar com os elementos e desenvolver uma base sólida para as prática, trabalha também muito com poder interior e com as relações, consigo mesmo e com os outros, saindo do individual e partindo para o coletivo, para a comunidade, para o dia-a-dia.

Este primeiro texto é para explicar os pilares, os seguintes serão mais um aprofundamento e trabalho prático acerca dos mesmos e como podemos exercitá-los para ter muito além de uma vida mágica eficiente, estabelecer relacionamentos sadios com a nossa comunidade. Os quatro tradicionais pilares são os famosos Saber, querer, ousar e calar, mas como tudo evolui e se aprimora os pilares também evoluíram e foram ligados aos quatro elementos e acrescentado mais um, o topo da pirâmide: O espírito. Um programa de treinamento de 5 meses com todos os lados da pirâmide. Então preparem-se para trabalhar, levantem as mangas e mandem ver! Durante esse tempo estaremos construindo nossos corpos mágicos, relacionados com os 4 elementos mais o espírito. É o desenvolvimento de bases mágicas eficientes.


Saber (nescere)

-Corresponde ao elemento Ar.

-No novo esquema "Saber" se torna "Imaginar".

Basicamente esse princípio tem a ver com adquirir conhecimento, seja de livros, professores ou de experiências. Também tem a ver com qualquer coisa ligada ao conhecimento como: organizar este saber, lembrar, analisar, pensamento lógico, imaginar e por ai vai. Isso remete a muitas habilidades necessárias em um ritual: Lembrar as palavras de invocação, saber quando lançar o circulo, quais as correspondências e saber qual é a sensação de se aterrar corretamente.

Na arte conhecer é poder. Nenhum conhecimento é desperdiçado e você vai se dar conta de que as aulas de arte do seu primário te ensinaram coisas realmente úteis para realizar um ritual eficiente! Ou que as dicas de sua avó sobre como plantar e colher te ajudam hoje a ter um bom jardim e até mesmo as aulas de educação física te auxiliam a se concentrar e centrar!

Os famosos dizeres: "Conhece a ti mesmo”, "Conheça a sua Arte", "Aplique o seu conhecimento" Se incluem neste pilar.

Conhecer se adapta em Imaginar por um simples motivo: Magicamente, imaginar é visualizar, uma das (senão a mais) útil das ferramentas mágicas! É visualizando que direcionamos, invocamos, sentimos e fazemos acontecer! A imaginação liga-se diretamente com o intelecto, com o Ar.


Querer (Velle).


-Relaciona-se com o elemento fogo.

-Representa a disciplina/vontade e suas habilidades de magia e de fazer acontecer (o mais importante! As coisas acontecem, já que o bruxo, através da sua força de vontade as faz acontecer!).

Esse esquema pode ser dividido em duas categorias: A mundana e a mágica. A parte mundana é manter sua vida em ordem, conseguir buscar e alcançar o que se quer e ser organizado com as suas coisas, é cumprir promessas e compromissos, é falar a verdade. A parte mágica se refere a vontade de ver um trabalho seguindo o seu curso e alcançando um objetivo, manter uma intenção clara sem se distrair.

Concentração, disciplina e conduta são definitivamente parte deste esquema, assim como entusiasmo e motivação para realizar o trabalho/ritual em primeiro lugar.

Se colocar alinhado com a vontade divina também se inclui neste tópico.

“Manter seus pensamentos e ações em boa ordem” e “Comer e Beber corretamente” se encaixam em “Querer”.


Ousar (Audere).

-Corresponde ao elemento água.

-Engloba as emoções, o coração, já que a palavra coragem tem a mesma origem que coração.

-No novo esquema representa Fé.

Ousar trabalha com a capacidade de encarar seus medos, especialmente aqueles que envolvem trabalhos mágicos e contato com as divindades e é por isso que foi transformado em fé. Saber mais do que confiar, viver mais do que acreditar, isso é ter fé! Você vive os Deuses, você sabe que eles existem e por isso confia e se entrega, ousa cruzar o limiar. Ouse tentar diferente, pois sabe que o resultado será diferente, ouse ser criativo, inspirador e destemido, interaja com os Deuses, busque-os, encare a sua sombra.

Isso não significa que você nunca deve sentir medo ou deve reprimi-lo, muito pelo contrario, o medo é uma ferramenta, um instrumento de reconhecimento de si e fortalecimento. Integrar-se a sombra, respeitá-la e reconhecê-la é inspirador e engrandecedor. Um dizer muito popular da Feri Tradition, é “Onde há medo, há poder”, poder interior ao contrario de poder-sobre, é poder reconhecer, é poder fazer diferente é poder enfrentar aquilo que te prende e te deixa rígido.

Vale lembrar que todo sentimento dentro do círculo é aumentado e fortalecido, por isso que muitos métodos iniciáticos colocam “Melhor ferir-se com esse punhal do que entrar no círculo com medo ou desconfiança”.


Calar (Tacere)

-Corresponde ao elemento terra.

-No novo esquema representa o Segredo.

Manter o silêncio ou respeitar o trabalho mágico o deixando em segredo, é sobre isso que se trata essa premissa. É neste ponto da pirâmide que refletimos sobre o poder de nossas palavras, a energia investida em nossa voz e a necessidade de se focar num trabalho mágico sem que exista muita conversa sobre, afinal de contas, se o propósito de um ritual é a manifestação física de alguma coisa, temos que tomar cuidado para que essa manifestação não aconteça através de palavras.

Janet Farrar tem uma visão muito interessante sobre isso e se liga um pouco com o processo de trabalhos com sigilos, uma vez que o processo ou ritual foi feito, não se fala mais nisso, pois a energia foi para o inconsciente onde ficará fermentando até o momento oportuno. Falar sobre é desperdiçar energia mágica.

Atualmente nossa sociedade tem se tornado cada vez mais aberta a diversas coisas, mas ainda existem preconceitos acerca dos trabalhos de bruxaria baseados em pura ignorância (no sentido de ignorar o que realmente é a bruxaria.) e o que um trabalho mágico realmente não precisa é ter energias que vão contra ele, como um colega de trabalho desconsiderando seu ritual, fazendo graça ou desmerecendo a sua prática religiosa. O silêncio vale ouro! É neste aspecto também que nos propomos a pensar mais antes de falar, a pensar em cada palavra que vamos dizer e em que vamos nos comprometer, para que isto esteja em sintonia com a nossa realidade e capacidade, só fale o necessário, invista essa energia em dizer a verdade ou para imbuir o ambiente ao seu redor com bênçãos e coisas que agregam! Isso torna a nossa sociedade mais polida e muito mais harmoniosa. Minha mãe sempre diz um ditado que vale muito nessas horas “Se não tem nada de bom pra falar, não diga nada!”.

Silêncio também indica o “marco zero” o silencio interior, o som do nada, é muito importante para o trabalho mágico, já que toda prática deve ser iniciada com um centramento e aterramento (e então a importância do elemento terra neste ponto da pirâmide). E convenhamos, é muito difícil manter-se centrado se não conseguimos silenciar nossa mente, certo?

O silêncio nos permite escutar os Deuses a natureza ao nosso redor, nos permite escutar mais os outros e estarmos mais presentes em nossas relações, já que muitas vezes as pessoas precisam de alguém que as escute de maneira ativa, atenta e sincera.



Manifestar.
-corresponde ao espírito. É o topo da pirâmide.

Algumas tradições colocam como o quinto elemento o espírito, o elemento que mobiliza incita a vida nas coisas, as faz acontecerem, manifestarem no plano divino, espiritual e também no físico. São os quatro elementos em perfeita harmonia, é o resultado de uma combinação temperada com inteligência das energias elementais. É se alinhar com o Eu-Superior, com a mente cósmica, com a centelha divina dentro de cada um, é despertar o sol interior e poder brilhar, contagiando tudo a sua volta com luz, é uma prática que condiz com sua crença, de que tudo é sagrado e todos somos divinos é reconhecer a Deusa em todas as manifestações da vida é saber aplicar os conhecimentos e navegar de acordo com as marés de poder!


Conclusão:

Ao trabalharmos com os quatro alicerces da pirâmide e mais o topo poderemos desenvolver as habilidades necessárias para que a magia se manifeste no plano real e isso vai muito alem de feitiços, se desdobra para uma postura ética e moral saudável, desperta o poder interior e ainda uma vida com mais qualidade. Nada disso deve ser rígido e sim feito através de muita reflexão e boa vontade! Levar a sério não significa que não possa ser divertido. Nos próximos meses faremos o trabalho com cada lado da pirâmide onde durante um mês praticaremos com um elemento especifico!

Namastê!


Matéria publicada originalmente na revista virtual "Vôo Noturno" Ed. 11.