terça-feira, 15 de março de 2011

Repensando a roda do Ano: Mabon, uma releitura.


“São as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração”. Águas de março - Tom Jobim

No grupo de bruxaria que participo laçamos um desafio, um projeto, uma reflexão: Repensar a roda do ano, refletindo sobre os aspectos astrológicos e físicos, naturais que acontecem ao nosso redor. Esta proposta foi inspirada pelo livro da Starhawk “The earth Path” que instiga a ouvir e perceber os ciclos da terra ao nosso redor e elaborar rituais que honrem esta mesma terra, esta mesma dinâmica. Não cabe a esta mera introdução explanar o por que disto, mas coloco que o objetivo final é sair desta alienação que a Roda do ano Celta nos coloca, que por algum motivo foi incorporada como padrão de celebração entre os bruxos modernos.

Motivado por toda essa chuva que cai aqui em minha cidade e por saber que este também não é um evento isolado ao sul do país ou menos ainda a minha região (moro em Joinville-SC) e ainda mais por estar em clima de organização de Mabon me peguei refletindo sobre o que a natureza ao meu redor esta dizendo (as vezes gritando) neste momento específico. O primeiro e óbvio simbolismo que me veio a mente foi água, então comecei deste ponto.

Água, quando penso em água penso em vida, penso em inconsciente, penso em mistério, penso no oceano, nos lençois freáticos, penso em intuição e penso também em Manannan, divindade Celta, guardião dos portões entre os mundos. Aprofundando mais a minha reflexão, pensando no círculo, água, oeste, último ponto cardeal do qual oriento o estabelecimento do espaço sagrado antes de voltar para onde tudo começou: a terra, o sul. Seguindo a lógica Terra-Morte, Ar-Nascimento, Fogo-Juventude e Água-Amadurecimento para voltar a Terra-Morte, percebi que Mabon tem essa essência Água, amadurecimento, sentimento e como um signo de algo maior, a lua, reflexão.

A chuva aproxima as pessoas, a chuva motiva a ficar na cama, assistindo um filme, a chuva lembra o frio. Mas como tudo na vida tem um lado oposto, a chuva é recebida com alegria por quem aguarda ansiosamente, a chuva refresca e é uma dádiva. Assim como a energia de Mabon. É um periodo de resguardo, de reflexão, é um periodo de agradecer também e de após um verão intenso, descançar, é o periodo que prepara o Deus para a viagem ao submundo, é o período de agradecer pelo caminho árduo da vida.

Fazendo uma alusão ao poder da água, perceber-se que a usamos muita vezes para limpar, para purificar, para relaxar. As águas do mar limpam, purificam, as lágrimas liberam sentimentos que muitas vezes nos bloqueiam, a água nos ensina o desapego. Os rios do Hades no levam ao outro mundo, Mnemosine nos limpa de memórias da vida passada e as enchentes muitas vezes nos levam o que temos de mais caro em bens materiais.

Mabon é um periodo que pede recolhimento, reflexão sobre o ano que passou e o ano que esta por vir, é a entrada do sol em Áries, a energia do nascimento, a energia que motiva, este festival também impele a mudança, a transformação, a dar início ao novo. Renovação, uma preparação para se transformar, áries traz a pergunta: de onde tiraremos força para recomeçar? Mergulhando fundo em nossos pesares e apegos, encontramos a semente de vida que cai em Mabon, encontramos a nossa sombra, com a qual precisamos nos integrar para sairmos mais fortes, nossa sombra são nossos medos, angústias e padrões que não reconhecemos como nossos, mas que quando integrados a psique nos garantes energia, nos fortalecem e agem a nosso favor. Amadurecimento, é durante esta fase que nos engrandecemos e nos preparamos para (re)nascer em Yule.

Ouvindo a terra ao nosso redor ela nos pede que respeitemos os rios, o oceano, a água que bebemos, pois ela é sábia, ela é sagrada. As chuvas fertilizam a terra, a chuva intensa causa o caos e destruição. De que maneira nossos sentimentos aprisionados, aos quais estamos apegados (luto, tristezas, culpas e remorsos) também não criam o caos e nos enchem de pesar? Honrar a água da terra é aprender a honrar a nossa água interna e permitir que ela corra sempre livre, expressar nossos sentimentos livremente, dar um direcionamento sadio para eles, construir, fertilizar e manter as nossas relações. Mabon promove a aproximação, o re-descobrimento de si, deixe que como as folhas das arvores, seus pesares caiam também para dar espaço ao novo, ao renascer, a fertilidade. Vamos honrar as águas de março e deixar que elas encerrem os verões de nossos problemas e apegos para que a promessa de vida nova e renovada possa surgir e vir completa.

Então proponho que pensemos em Mabon como um festival da água, que durante esta época possamos repensar o uso deste bem tão precioso, do impacto dele em nossas vidas e também de que maneira nossas ações contribuem para que todos tenham acesso a água limpa e pura. Que durantes os ritos de Mabon nossos sentimentos sejam purificados, ditos livremente e aceitos, transfomados, que o ritual tenha uma parte que honre as ondinas e os espiritos transformadores da água, que possamos deixar a energia fluir livremente, que os rios e riachos possam ser limpos, que possamos colocar em nossas orações e cones de poder intenções de purificação do oceano, as criaturas marinhas e que possamos honrar os espíritos das chuvas e honrar também o que a chuva trás. Oferendas a divindades do Mar ou dos rios, trabalhos comunitários que foquem a conscientização do uso sábio da água ou mesmo a limpeza física de uma praia, riacho ou corrente. Por que não reunir os irmão de coven e fazer um multirão na praia pra recolher o lixo que pode ser levado para reciclagem (que faz parte de Mabon também), ou juntar o pessoal e limpar um corrego perto de sua casa? Respeitar a água que bebemos e usa-la com sabedoria, pensar no tempo que levamos tomando banho, os litros que usamos para lavar roupas, carros e calçadas criar alternativas sadias e limpas de racionar a pouca água limpa que nos resta.

Um comentário:

  1. Oi, Bruno.
    Meu calendário é bem diferente... mas sim, agora é um momento de passagem. A impressão que eu tenho é que aqui no Sudeste, sào os equinócios que marcam passagens: de uma estação q chove para uma que não chove. Além do mais, tem o ano novo astrológico que eu amo e comemoro desde 2007.
    Então, pensar no que aprendemos no ano que passou é um must-do... e celebrar a chegada da nova energia, tb =)

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